Candidato índio britânico
Imagine que um indígena poderia ser um homem branco, pesadamente vestido por conta do frio, com alimentação baseada em tortas, pudins, peixes e batatas fritas. E que esse exemplar raro seria o único realmente digno de viver em sua aldeia. Pode ser uma ideia mais parecida com as do nazismo do que com as dos tupi-guaranis, mas é esse o conceito central na política de extrema direita do Partido Nacional Britânico, que disputará as eleições a partirde amanhã.
O grupo, que ainda não tem assentos na Câmara dos Comuns, equivalente à Câmara dos Deputados, obteve duas cadeiras no Parlamento Europeu em 2008 – apesar de seus líderes fazerem afirmações consideradas racistas, antissemitas, homofóbicas e defensoras de uma limpeza étnica no Reino Unido, mas "sem violência". “O povo indígena britânico está sofrendo com a falta de empregos e por conta do excesso de imigração. Queremos acabar com isso”, repete o líder do partido, de nome Nick Griffin.
Filho de um ex-oficial da força aérea, Griffin se diz “moderado”. Depois de aparecer em um vídeo ao lado de um líder do grupo racista norte-americano Ku Klux Klan, afirmou que se esforçava para atenuar as visões do interlocutor. Refutou que tenha comparecido a um evento secreto em celebração do aniversário do líder nazista Adolf Hitler – a apologia a essa ideologia é crime no Reino Unido, assim como a negação do Holocausto. Mas a mídia britânica obteve relatos de que ele estava lá.
O principal campo de batalha do líder e de seu partido será em Barking, na zona leste de Londres: Griffin enfrentará a ministra do Turismo, Margaret Hodge. Nas últimas eleições, em 2005, o BNP ficou em terceiro lugar, com 17% dos votos. Naquela ocasião, o grupo racista era menos conhecido e tinha expresso em seu programa que não aceitaria “não indígenas”. Desta vez, a proibição caiu – para efeitos estéticos. Griffin diz que cinco antilhanos e um chinês se filiaram até um mês atrás.
Apesar da exposição, aparentemente tal partido BNP, fundado em 1982 por simpatizantes do fascismo, terá dificuldades para eleger seu líder. Na região onde Griffin é candidato, dezenas de cartazes são espalhados com a foto dele e a ofensa preferida nos estádios de futebol britânicos: “wanker”, uma expressão equivalente a idiota masturbador em português. Mas a diferença entre a ministra e seu rival conservador na eleição anterior foi de 8.000 votos.
O fato, anota artigo de Maurício Savarese, correspondente do Uol em Londres, é que em 2002, o establishment político foi leniente com Jean-Marie Le Pen, um extremista apenas um pouco mais refinado do que Griffin. O resultado foi um segundo turno presidencial entre ele e o conservador Jacques Chirac. Uma sociedade multicultural tem que levar essas figuras curiosas a sério, para que não cresçam inesperadamente devido ao desencanto geral com os partidos tradicionais.



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